Epígrafe
“O destino não é o que nos espera, mas o que nos constrói — sem nos consultar.”
– Anderson Räder
Dedicatória:
A todos os que ousam pensar além do conforto,
e encontram, no silêncio do mundo,
a honestidade de uma pergunta sem resposta.
Epílogo — O Eco do Ser
Busquei sentido e vi que não havia:
nem mão de Deus, nem sopro do universo.
A vida é só um ato sem poesia,
um gesto cego escrito em rascunho inverso.
Mas mesmo assim — insisto, dia a dia,
em caminhar num tempo tão disperso.
Pois se não há razão, há melodia
no som da dor que canta em tom diverso.
O ser não quer resposta: quer presença.
Quer ter no caos um nome a ecoar.
E se não há final que nos compensa,
há dignidade em simplesmente estar.
Não sei por que respiro essa sentença,
mas sou o eco que insiste em perguntar.
I - O Destino e o Nada
O que é a vida, senão breve instante?
Um plano cego, e o tempo não responde.
Um eco surdo em abismo que se esconde,
Mistério vão, enigma delirante.
Peça escrita, com dor tão constante —
Quem dita a cena que o ator aponte?
Se for Deus, é cruel, senhor da fonte;
Se não, o caos governa, inconstante.
Atos frios que o destino determina,
O ser atua e morre no seu fim.
Cria-se o mal, o bem é só rotina
Farsa que inventa um senso de jardim.
O que nos move então? Que voz domina
Se tudo finda e volta ao mesmo fim?
A vida é jogo sem explicação,
Um verbo mudo a nos silenciar.
Sem causa, essência ou justificação,
Um fôlego sem pai a respirar.
II - Deus, o Autor Cruel
Se existe um Deus, por que me deu a vida,
Sem voz, sem rota, sem poder dizer não?
Fez-me ator de uma peça já vencida,
Com dor nos olhos e script na mão.
Chamam de amor o fio que Ele enreda,
Mas não há bem se o mal tem permissão.
Cria os algozes e, ao justo, dá a queda
É Ele o pai da própria contradição.
Diz-se que age por vias misteriosas,
Mas cada vil crueldade Ele prevê.
São Dele as mãos que regem nossas fossas,
E o bem que existe é só o que Ele quer ver.
Se tudo é plano, até as almas tortas
São marionetes d’Aquele que nos lê.
III - A Eternidade sem Criador
Se Deus não é, então quem me desenhou?
Quem molda o ser no útero da ausência?
Quem traça o fim, quem firma a dependência,
Quem me lançou num mundo que calou?
É só o acaso? Um átomo que andou?
Um grão sem lei, num mar de inconsistência?
Se é só matéria em vã sobrevivência,
Por que razão a dor em mim ficou?
Ninguém nos vê. Ninguém nos justifica.
Não há um Céu, nem culpa, nem perdão.
A vida é só fagulha que replica,
Um ciclo cego, impulso, repetição.
E o ser, que busca um fim que o dignifica,
É só ruído em meio à criação.
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