Toda viagem tem sua história, e a minha não poderia ser diferente. O aeroporto não é exatamente um lugar rico em histórias, mas aquele dia… foi especial. Alguém acordou com uma vontade louca de fazer uma pegadinha, e deu certo. Mudar um simples portão de embarque é capaz de transformar o destino das pessoas, ou pelo menos fazê-las acreditar que mudou.
Aquele aeroporto nunca mais será o mesmo. Era uma tarde ensolarada, com céu azul e um vento gostoso, típico de praia. O piloto se dirigiu ao portão de embarque e, ao chegar, percebeu que algo havia mudado: o voo seria no extremo oposto do que de costume. Ao encontrar a tripulação, trocaram algumas informações incompreensíveis e, no fim, contaram uma piada, relaxando todos. Depois da conversa, o piloto reparou que a aeronave não estava no portão. Então, ele perguntou ao atendente:
• Cadê o avião?
E o atendente respondeu:
• Avião? Que avião?
A resposta levou o piloto a outra dimensão. Como voar sem uma aeronave? Como levar aquelas pessoas sem avião? Percebendo que o piloto estava prestes a surtar, o atendente se deu conta de que um transporte aéreo realmente precisa de um avião. Ele pegou o rádio para descobrir onde estava a aeronave. Disseram que o voo estava atrasado, mas que em 15 minutos o avião pousaria. Passados 20 minutos, nada de aeronave.
Sem saber o que fazer, o piloto perguntou novamente:
• Meu amigo, até onde eu sei, não existe jegue alado, teletransporte ou voar com a força do pensamento. Cadê o avião?
Enquanto o atendente era questionado, a aeronave apareceu bem na frente deles. O piloto abriu um sorriso, como se finalmente fossem partir, mas… o sorriso sumiu tão rápido quanto apareceu. A aeronave foi para outro lugar.
• Sumiu! Como assim? – questionou o piloto.
Ele já não estava entendendo mais nada. O atendente arregalou os olhos e começou a suar frio. Essa reação encheu de esperança os passageiros sedentos por confusão. Sempre tem aquele especialista em ficção para dizer:
• Isso está muito estranho. Vi num filme que, quando isso acontece… não sei não, é um mal presságio!
Isso já foi suficiente para deixar os velhinhos em desespero. O salão virou um espaço de fé e de últimas ligações. Parecia que Deus havia ouvido as preces, porque o atendente recebeu um comunicado dizendo que o avião havia se dirigido ao portão errado. Quando terminasse o desembarque, ele iria para o portão correto.
Essa informação estimulou os defensores da ciência a ficarem mais criativos:
• Engraçado, o piloto pode descansar, mas o avião não. Como assim? Ele não vai aguentar mais um voo. O motor está quente, vai pifar. Mas, se Deus permitiu, é porque Ele sabe o que é melhor para cada um!
As senhoras começaram a chorar. As despedidas foram ardorosas, pois, com o motor superaquecido, todo mundo morreria naquela tarde de setembro. Revoltado, o piloto falou em voz alta:
• Meu amigo, estamos falando de uma aeronave projetada para grandes distâncias, como Europa e EUA. Rio x Fortaleza e Fortaleza x Rio no mesmo dia não é um obstáculo. Acalmem-se, pois vamos voar!
Enquanto a tripulação se dirigia ao túnel, o defensor da ciência ficou indignado:
• Piloto petulante, não sabe a besteira que falou. É aquilo, a gente tem que ficar quieto para o mal não ser maior.
Quando o embarque começou, as pessoas saíram empurrando e correndo para escolher o melhor lugar, como se os assentos não fossem numerados. Nessa correria, ninguém mais se lembrou que o avião iria “cair”.
O avião decolou. Surgiu um burburinho de aflição:
• Esse voo está muito esquisito. É avião que para num lugar, tripulação em outro… tenho maus pressentimentos.
O nervosismo tomou conta dos passageiros. Quando o piloto avisou para não tirarem os cintos por causa de turbulências… foi o estopim para mais choros e exageros. Um coach quântico falou:
• Eu disse que tinha algo de errado! Não consigo entrar na frequência da vida próspera. Isso é culpa do piloto. Se vibrasse na conformidade do chamado de Deus, não teria voado. A física quântica é prova da lei da atração, referendada pelo sagrado. Ele entrou na vibração do ódio, atraindo a nossa queda. A negatividade dele gerou uma desordem astral, e isso fez com que o telefone deixasse de funcionar. Estamos sem sinal. Meu Deus! Não queria morrer dessa forma!
A cada turbulência, mais desespero:
• O avião vai cair. É um sinal de Deus! Se não tivessem macumbeiros e ateus nesse avião, ele não cairia! Cadê os ateus? Não creem em Deus? Nessa hora, estão rezando. Deus está punindo os macumbeiros, eles têm dívidas com o Pai!
É incrível como o desespero acaba quando o lanche é servido. O juízo final faz uma pausa para dois biscoitos sem graça e refrigerante quente. Como a refeição é sagrada… todos se calaram.
Foi nesse dia que entendi a importância do serviço de bordo: o biscoito é capaz de salvar vidas. De alucinados a famintos, todos se acalmaram.
O voo seguiu seu destino, como qualquer outro. Aterrizou normalmente, o motor não apresentou falhas, o avião não foi sequestrado e, muito menos, virou roteiro de filme.
Autor: Anderson Räder
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