A vida de quem tem doença autoimune é uma eterna e silenciosa luta; o seu corpo é o campo da mais violenta batalha. Não há como se defender. Os remédios são apenas um front que atrasa a evolução do inimigo. Às vezes o ataque torna-se visível — psoríase, lúpus e vitiligo — mas, na maioria das vezes, não é possível vê-lo. É uma ação impiedosa.
De herói a vilão, assim se comporta o sistema imunológico. Por se tratar de um erro genético, nada pode ser feito; apenas aguentar a diária tortura. As dores não têm fim.
Várias mudanças são provocadas, como depressão, síndrome metabólica, inflamação nas articulações, unhas quebradiças, pressão alta, irritação, cansaço, febre... Mas isso ainda não é o pior. O pior é a ignorância, que transcende aos leigos e contamina alguns médicos.
Já ressuscitei dos grotescos erros médicos umas quatro vezes; quantos medicamentos tomei que eram completamente equivocados!? Até o diagnóstico era errado, chegou ao ponto de achar que era fungo, mas não era; depois era uma alergia; e por fim, quando acertaram a doença, erraram a ação dela. Psoríase não é uma doença de pele de origem psicológica; é uma doença genética que também carcome a pele.
A intolerância não para por aí. Quem não tem doença autoimune não sabe o que é discriminação, não faz ideia do que seja isso. Não sou apenas taxado disso ou daquilo, sou visto com escárnio e maldizer. Quantas vezes, em um transporte lotado, o espaço ao meu redor ficou vazio; só não fui agredido fisicamente por medo do agressor de ser contaminado.
O pavor e pânico que as pessoas têm pela possibilidade de serem contaminadas por um vírus que provoca uma reação autoimune (Covid-19) é a minha realidade. Enquanto essas pessoas podem se proteger, eu não posso. Essa é a minha infeliz natureza.
Por isso, não julguem quem tem a doença; procurem saber o que se passa, pois quem a tem sabe que abriu uma caixa de Pandora.
Autor: Anderson Räder
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