Em uma linda manhã de inverno, estava caminhando na praia quando fui acometido por uma crise de tosse. Ela foi tão forte que eu não conseguia falar e me faltava o ar. O desespero tomou conta do ambiente. As pessoas me olhavam espavoridas; os pais agarravam-se aos filhos, temendo uma contaminação; as vovozinhas começaram a orar fervorosamente; os jovens corriam na velocidade da luz; enquanto os guardas da prefeitura formavam um cordão de isolamento. Do éter divino surgiu uma ambulância — nunca tinha visto algo assim. Senti-me como em um filme do ET. Rapidamente, os paramédicos me atenderam, trajando roupas que pareciam de astronautas.
A sirene tocou e, quando dei por mim, já estava isolado em um hospital. Chamaram um padre e até um pastor para a extrema-unção. O caso era grave, diziam. O padre suplicou a Deus, pedindo perdão pelos meus pecados, alegando que tudo aquilo só havia acontecido porque eu não dava valor aos ensinamentos do Criador; enquanto o pastor me apresentou uma beberagem ungida, dizendo: "Sangue de Jesus tem poder! Aleluia! Somente Ele pode te salvar." Enquanto o padre e o pastor rezavam, uma voz que parecia vir do além sussurrou:
- Dê hidroxicloroquina para ele. É a salvação.
Antes que me dessem o medicamento, tomei a beberagem de um só gole. Espantados, os médicos me olharam, sem saber o que dizer. Era um milagre! De moribundo a vivo, num passe de mágica. Como assim? Queriam que eu fizesse uma bateria de exames. Meu caso deveria ser levado à comunidade científica, sugeriu um dos médicos. Enquanto isso, o padre e o pastor falavam de Deus e diziam que a ciência jamais entenderia a alma pecadora dos homens — apenas o Pai era capaz disso. Quando, finalmente, permitiram que eu falasse, disse:
- Não era um caso de covid-19, estava apenas engasgado; precisava tomar água com urgência. Era só isso.
Comentários
Postar um comentário